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Lar

Ele construiu ali o seu templo.

Não era uma casa com tijolos e telhado.

Mas era uma morada bem construída

Dentro do coração de outra pessoa.

Onde estivesse, não importava.

Se com ele carregava a sua casa.

Bens físicos? Desapegado.

Mas o seu verdadeiro lar era muito bem decorado.

Chegava com seus enfeites e o tomava cada vez mais para si.

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Jornada de um dia

Um dia, sem pedir permissão, sua vida passou diante de seus olhos.

Não bateu antes de entrar. Simplesmente arrombou a porta e passou, como um vulto denso. Que deixou rastros.

Ela captou 27 anos de si em segundos e os sentiu em seu estômago, em suas pernas, em sua boca, em seu tato e em seu peito. Em seguida, em sua garganta e em seus olhos.

Seu próprio corpo lhe contava ali a história de si mesma.

Ela se fragmentou em pedaços.

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A Despedida

O dia começa com peso. As horas se arrastam indesejadas. A terrível antecipação do que está por vir. O tempo é implacável. Uma mão trêmula alcança a outra. Um caminho torturante até o seu fim inadiável. Um olhar é evitado. Lágrimas são impedidas de cair. As mãos, unidas, começam a suar. Apertam-se com força, como se quisessem se tornar uma só, inutilmente. Um calafrio com o duro esforço de ignorar a inevitável realidade estremece o corpo. Um chamado se torna presente. E um momento em que o tempo congela abafa a respiração. Uma ciência avassaladora de que não há mais como revogar a dor.

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O Bobo da Côrte

Havia um reino que tinha um palhaço famoso por suas imitações teatrais e fanfarronas dos burgueses e figuras mais marcantes da realeza.

As críticas caricaturas pareciam agradar o gosto popular e seus espetáculos começaram a se tornar grandiosos no mesmo passo que sua arrogância.

Tinha um talento nato e inegável de se passar por quem ele quisesse com perfeição e até enganava de verdade os mais desavisados. Um dia, chamou a atenção do rei ao interpretar o seu papel, e como ele se tratava de uma figura aclamada pelo povo, o rei resolvera lhe dar uma colher de chá.

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A conversa franca

Chegou em casa e sentia um peso enorme no peito. Aquela sensação de que iria explodir. Rolou de um lado e do outro na cama por longos minutos. Não conseguindo adormecer, levantou-se de supetão e se sentou em sua penteadeira. Olhou-se no espelho: cabelos escovados, olhos escuros pesados e profundos. Observou seu próprio rosto por um tempo e se intrigou com algo que vira em seus olhos em um lampejo. Encarou-se um pouco mais atentamente. Logo percebeu que seus olhos queriam lhe dizer algo. Pareciam estar suplicando a sua atenção em uma mescla melancólica e agitada de tons negros e marrons.

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A Selva

Criaturas urram de todos os lados, e outras respondem de outros.

Batendo forte no peito, cada uma em seu espaço, chamam a atenção para si e intimidam.

Há seres de todas as espécies e raças, porém todos visam o mesmo objetivo: dominar a selva.

Para isso, precisam destacar-se. Precisam estufar o peito e ser bons caçadores.

Aqueles que não se garantem estão fora. Para sobreviver ali, é preciso ser aceito por algum grupo.

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[CONTO] A Cura do Adulto Ferido

Ele passou o dia todo ansioso naquele dia. Era domingo, e teria uma visita especial para o café da tarde. Mal sabia como compor a mesa. Leite com achocolatado? Rosquinhas? Já fazia tanto tempo. Tentou se lembrar e recordou que o visitante gostava de molhar o bolo no leite e comer pão sovado com manteiga e toddy. Riu de si mesmo ao ver que estava efetivamente se prontificando a preparar essa iguaria da culinária para servi-la em breve. “Como será que ele é?”. Tinha vagas lembranças.

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[CONTO] A noite em que eu a reencontrei

Foi sentada de frente para um dos picos mais altos e mais lindos que já vi que a reencontrei. Era noite e a montanha não estava só. Tinha a companhia de uma velha amiga prateada, que neste dia resolveu iluminar todo o céu e expulsar todas as estrelas próximas a ela. Estava admirando a beleza plena e imutável da pintura à minha frente e sentindo a brisa passar pelos meus braços quando a abstração do tempo veio. E então ela chegou. A encontrei sorrindo, e meu peito sorriu de volta. Aquela sensação de paz como reencontrar uma velha amiga.

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[CONTO] Simplicidade em Vida

O galo velho ainda berrava rouco denunciando o tímido sol quando acordou e sentou na cama. Os óculos de lentes grossas e redondas pousavam ao lado do abajur que há tempos espera por conserto sobre o criado-mudo desgastado por cupins. Enfiou os pés com as meias relaxadas que um dia tricotou na chinela macia e quente que deixa todas as noites ao lado da cama e tateou o criado-mudo. Colocou os óculos e se levantou, fazendo a madeira velha do assoalho ranger.

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