O sol se põe no horizonte. As folhas caem secas do topo das árvores. Sinto o chamado da natureza de recolher-me. Como um instinto que toma conta de meu corpo, sinto a premonição da mudança com todas as minhas células. Primeiro, ela vem em sonhos. Depois concretiza, quando a abraço e deixo ela entrar. Sinto-me em êxtase, ao mesmo tempo que melancólica. É sempre um paradoxo. Gosto de deixar que os momentos da minha vida passem por mim sem que eu me apegue a eles, a coisas e a lugares.

Gosto de me sentir livre assim. Mas sou aquele ser livre intenso, que vive um dia após o outro, e de tanta presença o coração se apega aos mínimos detalhes. Como as pétalas rosas no solo da praça em frente à sacada de meu quarto e as maritacas que vem me dar bom dia todas as manhãs. Meu processo de despedida começa, e lágrimas caem de alegria e já de saudades. Isso porque tenho gratidão por cada passo que eu já dei, e por esse lar ter sido meu casulo durante todo esse tempo.

Aqui mais uma vez aprendi a ser minha melhor companhia mesmo quando aquele vazio intrínseco à existência do ser humano batia. Aqui mais uma vez pude rascunhar os sonhos mais profundos do meu coração e pregá-los na parede e na tela da minha mente. Aqui fui para baixo, mas desta vez pude controlar a descida, e a subida foi bem mais suave. Porque pude me lembrar que estou em um constante transmutar, às vezes me esqueço disso. Às vezes estou na fase da lagarta, às vezes sou borboleta. Colho os frutos de ambas as fases. Entendo que a vida é assim.

Acolho minhas etapas de maior sensibilidade, e me permito estar. Sentir. Me emociono com o menor sinal de gentileza da vida. E hoje estou saindo do casulo, aos poucos. Precisei dele nos últimos dias para poder estar inteira e deixar a metamorfose seguir seu curso. Nota interessante que observo enquanto vivo é que quanto mais dores, vivências e desafios, maior é a munição para as transformações.

Minha nova versão sai em breve, não espero que seja rara e belíssima com cores radiantes, só que minhas asas sejam grandes o suficiente. E que eu enquanto borboleta dure ao menos um verão. Depois volto a ser lagarta, com prazer. Aprendi há muito não brigar mais com a vida. Apenas me permito. Viver.