Uma vez lhe falaram que alguém só pode estar feliz, e não ser feliz, por se tratar de um estado de espírito como outro qualquer, como estar triste.

Naquela noite, naquela festa, ela estava triste. Não que a essência dela combinasse com aquilo, na verdade estava sedenta por dentro de um fio sequer de alegria. O frenesi em sua volta apenas fazia evidenciar que algo estava errado dentro dela. Queria trazer o positivismo que ela já conhecia para fora, mas que estava ausente no momento, e aquela luta a enfraquecia. Vai saber. Às vezes o mundo pode ser pesado demais.

E então começou a tocar aquela música. O som familiar a ela começou a se densificar em seus ouvidos e, de repente, aquilo era tudo o que ela ouvia. Cansada, cedeu à tudo e se entregou ao momento. Lentamente, deixou a música entrar e adentrar o seu peito. A melodia batia junto com o seu coração. Logo, o momento tomou conta de seu corpo. De olhos fechados, entregou seus movimentos ao som que agora a guiava. Ergueu os braços na altura dos ombros, de peito aberto, como se quisesse abraçar aquele instante. Balançava-os suavemente, seguindo o movimento com a cabeça. Sua boca sorriu. Olhou para cima e contemplou a lua, e aquele céu estrelado da noite que começava a ser pintado pelas cores do amanhecer. Sentiu aquela onda quente gostosa arrebatar o seu peito e uma lágrima escorreu pela face. Fechou os olhos novamente, enquanto sorria macio e tentava se segurar ao máximo naquela sensação.

Ninguém pode ser feliz o tempo todo, ela pensava. Talvez satisfeito, mas ninguém tem a felicidade em um potinho. Às vezes ela te visita. E ela vem. E ela vai. Como um beijo caloroso que esquenta o seu corpo todo e permanece por um momento. E te faz dançar.

Esse momento é a dádiva da vida. Uma fração no tempo em que a nossa consciência nos permite perceber, além de nossas limitações humanas, que nos basta estar vivos, pura e genuinamente. E nada mais.

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