Eu saí de casa aos 18 anos, como muitos jovens do Brasil e ao redor do mundo. Criada em cidade pequena onde tudo que eu fazia era a pé ou meus pais me levavam, a primeira vez que fui voltar à minha cidade em um feriado, peguei minha mala, sem dinheiro, e liguei para minha mãe.

Eu disse: Preciso ir para a rodoviária, mas táxi fica mais caro do que eu tenho… O que eu faço?

Ela falou: Não tem ônibus que vai para a rodoviária?

Eu respondi: Sim, mas estou com minha mala e minha mochila…

E então ela perguntou: E qual é o problema?

Ela falou com amor. Talvez não tinha intenção de me desafiar nem fazia real ideia do quanto era árduo pegar um coletivo para o terminal às 6 da tarde. Porém, eu captei a mensagem que começaria ali a entender. Qual era o problema, afinal? Eu tinha total condições de passar por qualquer situação que fosse desfavorável. Pequenos detalhes como aquele não tinham o poder real de me impedir. Eu teria que ter me programado para sair bem mais cedo, então correria. Entraria com a mala na porta do meio do ônibus, e daria a volta pela catraca. Ficaria de pé no ônibus lotado. Eu suaria. Andaria do ponto até a rodoviária. Eu cansaria. Mas qual era, mesmo, o pior cenário que poderia acontecer? Eu tinha duas pernas, sendo assim, eu era apta.

De um simples passo como esse que pode parecer banal, aos poucos fui tomando confiança a me submeter sem maiores problemas em qualquer situação que exigisse um pouco mais de mim e de jogo de cintura. Comecei a perceber que apenas a partir de pequenos (e grandes) desafios que podemos realmente nos conhecer. Equilíbrio emocional não vem de estabilidade.

Depois de 10 anos fora de casa, fui entendendo que tudo que eu precisava para sobreviver estava ali, comigo. Eu, e apenas eu, me bastava para dar meu jeito.

Hoje, completando um ano que estou novamente fora do Brasil, me peguei refletindo sobre isso e, particularmente, sobre como a nova geração parece encarar seus desafios. Perdoem-me se minhas observações estiverem equivocadas, mas eis aqui algumas de minhas apreensões.

Talvez o excesso de mimos tenha criado filhos fracos. Talvez a falta de “nãos” tenha produzido filhos que não conseguem lidar com frustrações. Jovens incapazes de lutar com persistência apesar dos obstáculos da vida. Talvez a infinidade de possibilidades sem sabedoria tenha resultado em jovens perdidos e em constante fuga da pesada responsabilidade da escolha. Por sua vez, escolhas vem com renúncias. Isso significa abrir mão de tantas outras possibilidades por um único objetivo. E como isso exige coragem! Daí a fundamental importância de se criar filhos fortes. Aptos a lidar com o compromisso consigo mesmos, dispostos a correr riscos, porque não são feitos de porcelana. Se cair, não quebram, mas sim aprendem e aperfeiçoam a técnica. Seriam feitos de borracha para amortecer os tombos e mudar de direção, se for o caso. Não seriam quadrados, se virariam.

Talvez essa seja uma reflexão válida a ter em mente quando educarmos os nossos filhos: estamos os preparando para dominar o céu aberto e lidar com todos os climas?

“Lidar”, porque é impossível saber de fato. Pense bem. Nós, a essa altura, já deveríamos saber. Mas daí vem a vida e muda completamente o tempo.

Se existe uma certeza, é que os desafios estarão sempre mudando. Isso acontece com todos em todas as fases da vida: continuamente, chegamos no fim de mais uma etapa. Nesse momento, muitas vezes nos pegamos parados olhando para o nada, inseguros do próximo passo. Há quem se jogue de vez pois conhece bem suas asas. Há aqueles que vão aos poucos, testando o terreno mas sabendo que do chão não passam. E há aqueles que precisam de um empurrão. Sendo um ou outro, não importa a maneira, o importante é voar. O maior ato de amor talvez seja ser você a força que desequilibra aquele quem ama de sua zona de conforto.

Afinal, é só após ela que seu eu verdadeiro aparece e que a vida se dá de verdade. Aproximando-me do fim de mais uma etapa da minha vida construída nessa verdade, o que posso lhe dizer é que não espere mais. Pegue sua vida nas mãos e tenha a coragem de se jogar. Atreva-se a te desafiar, testar o seu limite. Ouse fazer escolhas. Reclame menos, e faça mais. Leve tombos, mas insista. Chore sozinho no quarto a noite, mas amanheça com a cabeça erguida. Permita-se tentar e fracassar para conseguir da próxima vez. Permita-se aprender a lidar com seus baixos para saber como subir. Mergulhe nos seus medos mais profundos para, por fim, perceber que não são tão assustadores assim.

Hoje, pensando naquela menina de 18 anos e em toda a sua caminhada, lembro da célebre pergunta despretensiosa de minha mãe ao telefone. Diante de qualquer situação difícil que te surja, te convido a guiar sua vida a partir daqui com esse princípio em mente: Afinal, qual é o problema?.

 

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