“Saiu de sua casa e bateu a porta sem olhar para trás. Deixou suas coisas, sua agenda e suas certezas. Saindo de sua própria vida, ele deixou para trás sua identidade, matando-se ali e ressurgindo-se, mais tarde, como o ser, que é.”

Essa é uma breve história que acontece diariamente pelo mundo. Um suicídio de identidades cometido pelos mais corajosos e por aqueles que sentem-se sufocados pelo espaço que elas tomaram em detrimento ao seu ser essencial.

Você já se sentiu vez ou outra com uma vontade de ficar sozinho por um momento? Uma súbita e urgente necessidade de se afastar? Preste atenção quando isso acontecer, e permita-se obedecer a esse instinto.

Esse é o primeiro sinal de que uma vozinha lá no fundo está tentando te dizer o quanto sente falta de você. Mas você, nesse caso, é o seu eu verdadeiro por baixo de tudo aquilo externo. Esse, sim, é quem você quer encontrar quando sente que precisa ficar a sós consigo mesmo.

Mas como conseguir encontrá-lo? Como manter esse contato mais constante no dia a dia?

Há vários caminhos que podem levar a evidenciar o ser essencial, mas todos eles passam pela diminuição da identidade e do ego.

Quanto maior a necessidade de afirmação da sua personalidade, mais longe você está da sua essência.

Não é ao acaso que tornam-se famosas muitas histórias de pessoas que se perderam para se encontrar. Esse é um caminho subordinado à essa jornada, mesmo que você não se perca literalmente, mas faz-se necessário perder-se em outro sentido. Em outras palavras, desapegar-se de todas as suas definições e atribuições.

Por isso é cada vez mais frequente pessoas utilizarem de longas viagens para se auto-libertarem. Não são a única via, mas essas experiências a lugares cada vez mais inusuais podem ser muito eficazes para contribuir para a desconstrução do eu. Tudo dependerá da intensidade da busca.

Costumo dizer que, em pelo menos um momento da vida, todo mundo deveria se afastar. Afastar-se de seu meio, afastar-se de seu cotidiano, de sua própria vida. Afastar-se de si mesmo. Porque é através da morte gradual de quem você se faz e se fez até hoje que surge o (re)nascimento de quem você é.

“_Quem você é de verdade? – O sábio perguntou a ele antes que ele saísse.

_Eu sou um pai amoroso. Filho responsável. Professor dedicado. Naturalista. Determinado. Amo literatura. Amo azeitonas e rodinhos de pia.

O sábio o ouviu e voltou a falar pacientemente:

_Adorei conhecer alguns papéis que você desempenha, alguns traços de sua personalidade e alguns de seus interesses. Mas agora, me diz… Quem é você?”

Se você não entende claramente o que ele deveria responder a essa pergunta, está tudo bem. Esse é um questionamento que não deveria mesmo haver respostas em palavras. Afinal, quem nós somos de verdade usa apenas a linguagem dos sentimentos, portanto nos definir na linguagem humana seria nos limitar.

Talvez, ao invés de ‘quem é você’, seria mais apurado perguntar ‘Como você se sente?’.

Para responder a isso, afaste-se do caos e procure se ouvir! Dê um tempo da rotina (piloto automático mode on) e inclua alguns momentos para ficar sozinho e em silêncio consigo mesmo toda semana. Comece a praticar o desapego de si mesmo, vá desconstruindo-se peça por peça e entre em contato com o que está lá no fundo. No fim, pergunte-se: “De quais formas EU me sinto?”.

Talvez o desfecho para essa história seja algo assim…

“Entendeu-se. Compreendeu a si mesmo de todas as formas. E descobriu que para sustentar quem era, na verdade, era necessário pouquíssimo esforço.”

Ser você mesmo não deve te dar trabalho. Se há muito conflito, muito encargo ou se é difícil de qualquer forma para você sustentar sua própria identidade, imagine-se completamente sozinho em um lugar desconhecido. Quem você seria?

 

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