Dallas, 16 de outubro de 2017

Queridos erros e eventos desfavoráveis que me aconteceram no passado,

Gostaria de direcionar-lhes algumas palavras hoje. Vim em missão de paz. Ofereceria-lhes uma xícara de chá, mas, sendo bem franca, não gostaria que permanecessem mais do que o tempo devido. Certamente não cultivo nenhum afeto por vocês, mas devo-lhes meu respeito e admiração.

Hoje eu vim para redimir tamanha incompreensão com que eu os recebi, cada um em seu tempo.

Vocês foram mal-interpretados e atacados por mim e, por isso, peço perdão. Hoje percebo a tamanha precisão em sua maneira torta de acontecer, exatamente como eram necessários. Submersa em minha ignorância, me debati contra vocês com todas as minhas forças. Quão ingrata eu fui.

Mas hoje vejo os seus papéis na construção dos meus degraus. Hoje enxergo a escada toda. Noto que somente é alta assim devido a cada um de vocês: meus erros e falhas e todas as coisas que julguei negativas que me ocorreram. Se não fosse por vocês, seguramente ainda estaria muito mais perto do chão, de onde comecei. Talvez com mais solidez, é certo. Mas para aprender a ter equilíbrio, um pouquinho de instabilidade é necessário.

Hoje, do alto da escada, eu literalmente balanço, mas não caio. Me tornei uma excelente equilibrista. E hoje consigo enxergar mais longe. Tudo isso graças a vocês.

Aos que já passaram pelo meu sistema, meu muito obrigada. Significa que além de absolvidos, foram absorvidos e houve aprendizado. Aos que ainda estão a ressonar em minhas células, dou-lhes uma cota de paciência pois sei que o crescimento ainda está em processo. Mas se não houver futuro para vocês transformando-se em degraus, serei obrigada a descartar-lhes impiedosamente. Acontece vez ou outra ter de reciclar. E aqui não há espaço para livro ruim já lido empoeirado na estante.

Abrir espaço é fundamental para que novos possam chegar. Porque eu gostaria que erros voltem a ocorrer?, me perguntaria há alguns anos atrás. Para continuar em movimento, respondo hoje. A não ser que eu decida viver sem arriscar. Sem tomar para mim a responsabilidade de fazer acontecer minha própria vida. Sem me lançar de cabeça em minha existência, sem me entregar intensamente a quem eu sou e busco ser. Sem compreender que a vida é curta demais para ficar apegado ao que te acontece. Sem entender que só quem permanece imutável é quem tem medo de falhar e estar equivocado. Para quê esse preciosismo todo em algo que não é permanente?

Então não, eu definitivamente prefiro errar. E prefiro que a vida continue a me desapontar momentaneamente, porque a longo prazo nada está errado. Obrigada, contratempos, por aparecerem justamente quando eu mais precisava.

Obrigada por nunca desistirem de mim e continuarem vindo até mim, me empurrando para o caminho que devo seguir.

Gratidão aos meus fracassos por me darem a oportunidade de ser melhor.

Gratidão às minhas decepções por me ensinarem a ter expectativas apenas sobre mim, já que o resto não cabe a mim.

Gratidão às minhas perdas por me apontarem que tudo que realmente importa eu já tenho.

Gratidão aos meus erros por me ajudarem a me tornar quem eu quero ser.

Agradeço a todos vocês, infortunos detalhes, que fizeram parte da minha história por me manterem em alerta e me lembrarem que a chave da vida está justamente nas escolhas de como lidar com vocês.

Eu escolho mantê-los do meu lado.

Com todo o meu respeito,

Luciana

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