Um dia, sem pedir permissão, sua vida passou diante de seus olhos.

Não bateu antes de entrar. Simplesmente arrombou a porta e passou, como um vulto denso. Que deixou rastros.

Ela captou 27 anos de si em segundos e os sentiu em seu estômago, em suas pernas, em sua boca, em seu tato e em seu peito. Em seguida, em sua garganta e em seus olhos.

Seu próprio corpo lhe contava ali a história de si mesma.

Ela se fragmentou em pedaços.

Como cenas de um filme familiar muito querido, rebobinou-se em névoas momentos que marcaram a sua existência. Riu-se e emocionou-se no mesmo passo ao ver como aquilo tudo era banal, mas tão único na mesma medida…

A sua vida acenou de lá a autenticidade do simples, a verdade do ser e a paz genuína que havia ao repousar-se no amor.

E, como que a debochar, saiu de cena deixando o clichê de que a vida passa rápido demais.

Ao vê-la terminar seu ato inacabado, ela sentiu o legítimo significado do sentimento de saudade de si mesma. Desesperou-se com seu próprio apego e tentou agarrar no ar o último vestígio do que passou, intangível.

Seus pedaços se condensaram em seu peito e pareceram grandes demais para espaço tão pequeno. Em meio a tantos fragmentos, mesmo sentindo-se toda dentro de si, não foi capaz de deter e afixar nenhum deles. Em forma de um sopro, porém, a vida veio lhe lembrar como é efêmera e volúvel. Com um sorriso doce, mostrou-lhe que é, essencialmente, uma intensa e singular jornada. E saiu, levando um pedaço dela junto com as memórias e deixando-a sozinha com apenas um dia: hoje.

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– A Conversa Franca

 A noite em que eu a reencontrei

 Brainstorming em um dia de chuva

 

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