Ela estava cansada.

Cansada das aparências. Cansada daquele mundo superficial.

Como se as pessoas não passassem de bonecos de plástico de um jogo de faz-de-conta.

Nesse jogo, só se ouve monólogos.

Ela esgotou-se ao doar-se a um nível e em uma qualidade que já não se via mais.

Acostumada a sempre ouvir majoritariamente, estranhou quando se pegou falando de si daquela forma.

Ela quase nunca falava muito de si, e não pôde evitar de se observar.

Outra coisa da qual estava cansada. Do seu eu observador sempre ligado. Da voz interior sempre apontando, contradizendo, questionando, expondo, evidenciando.

Observadora. Uma característica que vem de fábrica aos escritores.

Reais escritores observam e escrevem a sua verdade.

Mas, notou, escrever pensando nos outros não é autêntico.

Que tipo de arte ou qualquer tipo de expressão interior é autêntica se for feita para os outros?

Não. De Van Gogh a Machado de Assis, todos eles faziam sua arte essencial para si mesmos.

Van Gogh… Você era um cara amargurado, não é? Sua biografia e seus autorretratos podem dizer que sim.

Pergunto-me porque a maioria dessas mentes sentiam o peso da inquietação como companhia. Eternos inconformistas? Incompreendidos? Peças que não se encaixavam no complexo quebra-cabeças do mundo?

Bom, todos nós travamos as nossas lutas.

Ah, se você soubesse as lutas que ela travava. Imaginaria?

As pessoas podem ser mesmo uma caixinha de surpresas.

Quantas faces você tem? Uma? Quatro?

Normalmente ela tinha duas: quando estava em sua essência a pleno vapor sendo o entusiasmo em extroversão, e quando estava em sua essência em baixa frequência sendo a calma em introspecção.

Se você a conheceu com outra face, foi erro de percurso. Às vezes o equilíbrio entre as duas, quase sempre estável, tomba e as obscurece.

Se você a conheceu apenas por uma delas, você não a conheceu.

E assim é a vida. O nosso mundo é cheio de pessoas as quais não conhecemos de verdade. Seguimos aprendendo nomes sem saber de suas faces. Colecionamos contatos sem ter contato com nenhum coração.

Ela sentia falta da profundidade. Do mergulho adentro. Da pérola a aguardar dentro da concha.

De alguns inconformistas de preenchimento, de algumas peças que se recusavam a encaixar na vida em forma de jogo de tabuleiro.

Onde estariam os artistas de si mesmos contemporâneos?

Ela procuraria como um peixe busca a água em suas entranhas para sobreviver.

Mergulharia otimista e daria de encontro ao raso muitas vezes e quantas vezes precisasse.

Porém, enfim preferira apenas observar de longe.

Sem dúvida, ela estava cansada.

Cansada das aparências. Cansada daquele mundo superficial.

Luciana Lima

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