Havia um reino que tinha um palhaço famoso por suas imitações teatrais e fanfarronas dos burgueses e figuras mais marcantes da realeza.

As críticas caricaturas pareciam agradar o gosto popular e seus espetáculos começaram a se tornar grandiosos no mesmo passo que sua arrogância.

Tinha um talento nato e inegável de se passar por quem ele quisesse com perfeição e até enganava de verdade os mais desavisados. Um dia, chamou a atenção do rei ao interpretar o seu papel, e como ele se tratava de uma figura aclamada pelo povo, o rei resolvera lhe dar uma colher de chá.

Mandou chamar o tal palhaço imitador e disse-lhe que o acolheria em seu castelo para fazer o entretenimento de todos da côrte todas as noites. Porém, sob duas condições: ao invés das imitações, o palhaço teria que criar sempre números novos e exclusivos e garantir os risos de todos os presentes. Se não cumprisse com os termos determinados, ele seria executado a bel-prazer do rei.

O palhaço, embriagado por sua soberba e imaginando-se o centro das atenções em meio aos ricos, logo pensou que seria um trabalho facilmente executável.

Prontamente aceitou o desafio, mas se recusou a morar no castelo, exigindo receber em troca uma bela bolsa de moedas de prata.

Feito o trato, logo na primeira noite o palhaço compreendera que não seria tão fácil agradar a um público tão exigente. Nas apresentações que se seguiam, teve de improvisar um dom forçado de provocar diversão a todos os espectadores, além do que já sabia fazer. Em meio a várias visitas ilustres a convite do rei, teve de aprender a se adequar como ninguém segundo a plateia que o esperava. E então, ele desenvolveu uma técnica.

A sua artimanha foi começar a usar máscaras distintas para cada público. Criara diferentes personagens fictícios para si e assumia as suas formas conforme quem o observava. À primeira vista, seu rosto parecia autêntico. Mas se alguém mais curioso o olhasse de perto com atenção, veria onde terminava a máscara e começava o seu pescoço.

O bobo da côrte mascarado passou anos e anos a fio dançando, cantando, fazendo malabares e o que preciso fosse para ser bem aceito pelo público. Sorria sinteticamente, mas por baixo se contorcia. Ele era a dicotomia viva das máscaras cênicas.

Quando voltava para a sua casa no fim da noite, o personagem se desconstruía e seu interior rasgava. Era dolorido tirar as máscaras. Sempre que podia, ele evitava ir para o seu lar. Lá ele não tinha plateia e era somente ele e ele. Em sua casa, sentia o peso de se encarar verdadeiramente como era. De tanto se esforçar para ser alguém que todos gostavam e viver de sua imagem, ele se perdeu. Ninguém pode ser o que não é tanto tempo. Naquele lugar, só, o espelho lhe lembrava a superficialidade de seu rosto. Ele mal se reconhecia. Sem as máscaras, ele não sabia quem era. Talvez não fosse ninguém, no fim das contas. Aquela sensação da face nua e exposta de expressão vazia era como uma tortura para ele. Um dia, decidira que nunca mais iria suportar aquela dor. Assim, após uma vida sendo bobo da côrte, ele passou a morar no castelo e nunca mais voltou a ver seu rosto.

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