Ele passou o dia todo ansioso naquele dia. Era domingo, e teria uma visita especial para o café da tarde. Mal sabia como compor a mesa. Leite com achocolatado? Rosquinhas? Já fazia tanto tempo. Tentou se lembrar e recordou que o visitante gostava de molhar o bolo no leite e comer pão sovado com manteiga e toddy. Riu de si mesmo ao ver que estava efetivamente se prontificando a preparar essa iguaria da culinária para servi-la em breve. “Como será que ele é?”. Tinha vagas lembranças.

Passando a manteiga no pão distraidamente tentou puxar pela memória como aquela pessoa se portava, o que ela costumava pensar, como se comunicava. E se eu não for quem ele espera? Começou a ficar apreensivo, vendo a hora combinada se aproximar. Dava olhadelas inquietas para o relógio enquanto terminava de preparar o lanche carinhosamente.

Quando estava colocando a segunda xícara em cima do pires, a campainha tocou. Algo dentro dele congelou, desceu pelas pernas e em seguida explodiu em um coração acelerado. É ele! Uma mistura de euforia e temor tomou conta dele. Deu quatro passos largos em direção à porta e parou. Respirou fundo, ergueu o peito e, finalmente, girou a maçaneta. Os olhos dele pousaram no pequeno ser que se encontrava do outro lado. Era uma criança encantadora, de cabelos bem escovados, camisa de flanela branca, shorts e sapatos bem engraxados com meias quase até a metade das canelas. O menino se inclinou ligeiramente para trás e os seus olhos se encontraram. Do lado de dentro da porta, um coração parou. Mesmo se preparando para aquele momento, o choque do encontro foi enorme para ele. Balbuciou atônito algumas palavras de cumprimento e, após alguns acenos desordenados com a cabeça, esboçou um convite sem jeito para que o menino entrasse, que o aceitou feliz. Ele o encaminhou para a mesa posta e analisou cada detalhe da criança que andava quase que saltitando à sua frente, puxava a cadeira e sentava em seguida. Os dois se acomodaram um defronte ao outro. Ele mal podia respirar, imaginando o que aquele garoto teria a tratar com ele. Porque ele está aqui, afinal?, pensou.

_Uau! Rosquinhas de côco! Minhas preferidas!! – estendeu a mão animadamente, agarrando três de uma só vez com seus dedos pequeninos e enfiando uma na boca.

_Isso aí… pode pegar quantas você quiser! – disse satisfeito ao vê-lo comê-las alegremente. Quando o menino acabou de engoli-las, um silêncio constrangedor desceu sobre a mesa. O garoto balançava as pernas na cadeira e observava, distraído, ao redor. O homem limpou a garganta.

_Err… você se importa de me dizer o que o traz aqui?

A criança virou o rosto para ele e o encarou, sorrindo:

_Eu vim salvá-lo desta sua versão.

_O quê?

_É isso aí! Não gosto da versão atual que você se configurou. Não é isso que planejei para você. – pegou um pedaço de bolo, molhando-o no leite antes de abocanhá-lo.

_Planejar? O que você está falando? Você não fazia planos, era só uma criança!

_Você já se perguntou alguma vez o que eu acharia de você, se pudesse vê-lo hoje?

_Se você pudesse me v… Não! Isso é maluquice…

_…Um velho triste. Frustrado, estúpido e triste.

O homem levantou espantado o olhar para o menino, que agora o encarava com olhos pesados de pena e decepção. Aquela criança que conhecia tão bem, nesse momento, parecia diferente. Aqueles olhos definitivamente não combinavam com ela. Refletiu por alguns segundos.

_Um velho triste?… Não vejo porquê me definir assim. É certo que eu não sou feliz o tempo todo, mas quem é?

_Todas as pessoas deveriam ser! Você era feliz o tempo todo. Eu sou feliz o tempo todo! O que mudou?

_Eu cresci! Não dá para ser criança para sempre, uma hora a vida acontece e você tem que encará-la.

_O vovô dizia que a vida é uma benção. Não entendo porque “bençãos” teriam de ser encaradas. Não, ao contrário, uma benção deve ser recebida com alegria e aproveitada da melhor forma! É só o que basta.

O homem pigarreou.

_Quando se é criança tudo parece ser muito simples mesmo. A vida é difícil, e não é essa utopia que você idealiza. Saberá quando crescer.

Cruzou os braços e olhava para a criança com ar de desdém. Será possível que aquele menino aparecera do nada em sua casa só para atormentá-lo? O garoto o fitava de volta incrédulo, com as sobrancelhas cerradas. Talvez começava a acreditar que sua visita teria sido em vão.

_Quando foi que você passou a depreciar a sua vida? O que fez você parar de acreditar que merecia mais, muito mais?

_Eu fiz o que estava em meu alcance, sei que não é a vida perfeita, mas vou levando-a do meu jeito!

Sentia as bochechas quentes de raiva, talvez de impotência. Não queria ser julgado daquela maneira. Não merecia. Ele havia feito o que podia fazer, era o melhor que podia e pronto. Sabia que sua vida não tinha tomado exatamente o rumo que gostaria e que não havia como negar o vazio que às vezes sentia, mas o que esse moleque queria que ele fizesse? Estava prestes a questioná-lo exatamente isso quando o garoto voltou a falar.

_Sabe que… eu tenho grandes sonhos para você. Você não realizou nenhum. Sabe, alguns eu entendo… sei que construir uma nave espacial pode ser meio inviável – avaliou, colocando o dedo na boca – Mas que tal ser uma pessoa incrível? Em nenhum cenário eu te imaginei sendo menos que extraordinário. Crescer era algo fantástico!

_Você queria algo que não existe! Ninguém pode ser… Poucas pessoas são incríveis. Eu sou o que sou. – começava a se sentir extremamente irritado e desconfortável com aquele diálogo inquisitivo.

_Você ao menos sabe o que é ser incrível para mim? Ao menos se lembra?…

_Eu não vivo mais no mundo fantasioso que você vivia. Eu vivo no mundo dos ADULTOS! – vociferou exasperado, dando um murro na mesa. Estava trêmulo. Houve uma pausa.

_Porque continua falando comigo como se eu estivesse no passado? Eu estou aqui, em frente a você. Agora.

Houveram mais dois ou cinco segundos que se examinaram mutuamente. E foi a primeira vez que o homem o viu de verdade. Ele observou os olhos vivaz da criança encarando-o do outro lado da mesa, o cabelo cuidadosamente ajeitado para o lado como a mãe penteava e a cicatriz de um pequeno corte que tinha ganhado na testa ao cair na rua de terra. Passou a mão em sua própria testa e sentiu a marca discreta que exibia há anos. Continuou a observá-lo, agora que escolhera o pão sovado para dar uma mordida, e lembrou de todos os seus cafés na casa de seus pais. Lembrou de seus irmãos e da casa sempre cheia. Aquela casa simples e vazia de diversas coisas hoje consideradas por ele como essenciais, mas sempre cheia de afeto, brincadeiras e risos. Lembrou do seu balanço que ficava no grande pé de manga no quintal e como ele gostava de ir o mais rápido e o mais longe que podia. Imaginava que se lançasse seu corpo para cima o suficiente poderia alcançar seus pés na lua. Lembrou que tinha um caderno que anotava o que queria ser quando finalmente crescesse, e como havia uma lista imensa com vários tópicos rabiscados, por não conseguir se decidir o que faria primeiro. Crescer, para ele, era mesmo fantástico. Porque ele seria tudo aquilo que já era quando criança, mas com autoridade para sê-lo no mundo real, o mundo onde as coisas acontecem, onde os adultos podem efetivamente fazer tudo o que querem. A possibilidade de ser alguém era fabulosa demais! Afinal, ele não era ninguém. Era só uma criança. Como adulto, queria ser espontâneo, ter a liberdade de escolha, ser bom e admirado, queria honrar os pais e ser referência no que faz. Queria ser feliz. Mas, sobretudo, ele só queria ser. Uma vez que teria a permissão necessária, ele apenas seria quem é. Ser feliz seria uma inevitável consequência. Afinal, não conhecia cenário diferente para quem simplesmente se permite ser.

Ele olhou novamente para o garoto à sua frente, aquela pequena versão tão sábia dele mesmo, que agora também o observava com um olhar curioso, imaginando o que poderia estar passando por sua cabeça. Estaria tudo isso passando dentro da sua mente, afinal? Estaria ele sonhando? Ele não sabia. A criança enfim resolveu quebrar o silêncio:

_Eu sou você. Você sabe disso, não é? Tudo o que eu tenho aqui comigo hoje você tem aí com você. Só está meio esquecido.

_Não está esquecido, está morto. Eu mudei. Sinto que o meu tempo já passou. Não me resta nada mais a fazer… Estou velho. Sinto muito te decepcionar. Não sou quem você gostaria. Você tem razão, sou um velho amargurado e não consigo mais encontrar a felicidade.

O garoto inclinou um pouco a cabeça para o lado e deu um largo sorriso travesso de canto de boca, mostrando seus recém-trocados dentes permanentes. E então rebateu com um tom otimista:

_Não. Você não pode encontrar aquilo que nunca perdeu. Como eu disse, só está meio esquecido. E eu vim aqui para lembrá-lo!

A criança soltou um riso divertido, arrastou a cadeira e se levantou. Em um piscar de olhos, o menino risonho se transformou em um ponto de luz cintilante, que flutuou suavemente por cima da mesa até se lançar no peito do homem diretamente no coração. Este ficou petrificado enquanto sua mente racional tentava assimilar se aquilo tudo era real e seu corpo sentia as mais diversas sensações. Um bolo quente tomava conta de seu coração e ele sentiu a urgência de rir alto e frouxamente.

Seu rosto relaxou e ele foi tomado por uma positividade irreconhecível. Espaço e mais espaço milagrosamente começaram a invadir o seu cérebro até que este se tornara completamente preenchido por um inusitado e impensável vácuo. Seu peito ficou inexplicavelmente leve enquanto sua mente era inundada por lembranças há muito esquecidas. Aquele menino era real, e agora estava dentro dele. E como ele amava aquele doce garoto! Não sabia a imensa saudade de vivê-lo que sentia. Ele não pôde conter a emoção de tê-lo novamente, as lágrimas escorreram pela face.

Olhou no espelho e não se reconheceu. Algumas rugas haviam se desaparecido? Definitivamente havia outro semblante ali. Olhou inquieto para suas mãos, seus braços e seus pés, que queimavam de energia. Sentia uma urgência de não desperdiçar a vida. Sentia uma urgência de viver. Queria correr, pular, fazer o que bem entendesse. Sentia a permissão latente de si mesmo para ser o que quisesse. E o espetacular de tudo isso, pensava, é que ele era adulto e nada nem ninguém poderia impedi-lo. A que amarras, afinal, estava preso a priori?

Sentia-se implacável. Como se pudesse tudo. A urgência de realizar estava tão forte por fim que ele se levantou de supetão. E não voltou mais a se sentar.

Enfim, ele se lançou para a vida… e também a permitiu ser o milagre divino que é.

Em meio às lembranças límpidas que surgiu em sua mente como um chip implantado, lembrou que, uma vez, o seu avô havia lhe dito que a vida era uma benção. E agora estava disposto a não tratá-la por menos que isso. Daquele dia em diante, nortearia sua vida sempre se perguntando primeiro: “Se meu eu criança pudesse me ver hoje, o que ele diria?”.

Luciana F. Lima

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