Eram nove horas da manhã e eu estava me ajeitando na cadeira em frente à mesa de madeira para tomar o meu café da manhã, lugar escolhido a dedo devido à vista espetacular que ficava ao meu lado esquerdo. Eu estava em um hostel lindo com pegada hippie no alto de uma serra de frente à lagoa da Conceição, em Florianópolis. Tudo era feito de madeira, rusticamente – e até grosseiramente – acabado, com ar sem frescura, do jeito que adoro. O refeitório ficava exatamente no ponto mais alto da rocha, o que lhe garantia uma vista inigualável que fizeram questão de preservar deixando-a livre de obstáculos visuais.

Abaixo via-se o resto da serra com a mata e a lagoa, rodeada de montanhas e nuvens. Apesar do dia estar nublado sem pista do sol, havia bastante claridade e, para mim, aquilo estava perfeito. Mas, naquela manhã, havia algo de errado naquela atmosfera.

Olhei à minha volta e observei as pessoas ao meu redor sentadas espaçadamente. Após uma breve análise, constatei: não tinha conversas, o que quer dizer que não havia trocas. Mas, o pior: não havia sequer presença. Não demorou 3 minutos para eu perceber o que estava tirando a consciência do local – alguns com fones de ouvido envolvidos em seu próprio mundo; três ou quatro segurando o smartphone com uma mão e encarando-o enquanto improvisava apenas com a outra para levar o alimento à boca; dois entre olhadelas para a tela e para a comida e um literalmente usava as duas mãos para digitar enquanto sua refeição aguardava pacientemente à sua frente. Analisei a situação com pesar, ciente de que todos nós fazemos isso o tempo todo. E então refleti por mais alguns segundos. Eu, que não estava com meu celular naquele momento, mesmo que não estivesse conversando animadamente com alguém, com certeza me lembraria daquele instante – principalmente pelo que eu estava sentindo, os cheiros, a vista. Porque eu estava lá, presente, e pude viver aquela experiência.

Você já parou para pensar quantos momentos foram deletados de sua cabeça e quantas sensações não foram vividas simplesmente porque você não estava inteiro ali? Há quanto tempo você passa por lugares comuns, viagens, paisagens incríveis, pessoas fascinantes, e deixa de vivê-las?

Eu tenho um palpite que pode tristemente representar a maioria de nós: paramos de viver desde que lá se foi a nossa infância. Você se lembra de como eram os seus dias quando você era criança? O dia era enorme, e você sabia de cor e salteado os detalhes que compunham o seu mundo. Os cheiros, a forma das coisas, o balanço das árvores, o barulho que o portão fazia. Você conhecia todos os detalhes da calçada mal nivelada e da rua aonde, com sorte, brincava. E porque será que isso acontecia? Se possível, faça um exercício consigo mesmo: retorne ao lugar onde passou a maior parte da sua infância e olhe com atenção. Observe em sua volta, deixe os olhos pousarem nos detalhes e veja, sem pressa. E então você começará a experimentar um fervilhar de emoções. Memórias, vindo à tona do âmago do seu peito e salpicando de um lugarzinho profundo e escondido do seu cérebro. De repente, você se sente como criança e, inevitavelmente, sente um comichão de nostalgia junto com a sensação de que a vida era leve demais. Mas será que esse sentimento era constante simplesmente porque éramos crianças e não tínhamos o encargo das preocupações? Ou porque a presença permanente praticada sem querer, senão pelo fato de ser intrínseca ao ser criança, era o que trazia esta sensação? Quando estamos inalteradamente no agora, não existem as distrações da mente.

Quando há presença, há memórias. O que me levou a pensar… o que estamos fazendo com as nossas próprias memórias hoje em dia? Não lembramos mais do que vivemos com a riqueza de detalhes que se recordava antigamente, e a razão para isso é óbvia. Quando há presença, há vida que foi vivida. E, sem dúvidas, há alguma troca com a experiência.

Mas como nos manter presentes em um mundo com tantas fugas? Há milhares de distrações que nos cercam diariamente, que nem mesmo preciso citá-las aqui. Distrações essas que só farão expandir ao longo dos anos para todos os âmbitos de nossas vidas.

Dando uma rápida examinada ao meu redor novamente enquanto mordia o último pedaço do meu pão com presunto, me questionei como quem encerrava a própria reflexão com um desafio pessoal: Como aumentar minha consciência a cada dia sem ter que ir viver no meio do mato?…

Sorri bobamente e me levantei, levando as louças que sujei até o balcão e encarando a pintura grafitada na parede que ficava logo abaixo dele.

Aqueles olhos cheios de noia (na ocasião da pintura) e um sorriso debochado do mestre gato listrado de Alice no país das maravilhas me fitavam de volta.

Talvez essa seja mesmo a resposta. Talvez não seja necessário me refugiar no mato ou voltar no tempo 30 anos atrás. Talvez ainda temos chance de contornar esse caminho antes que viremos todos corpos vivos, ou melhor, seres sem consciência vagando por aí. Basta voltarmos a viver como viviam os nossos maiores mestres: nossos eu-crianças.

Proponho um desafio – Quem está comigo?

Desafio-o(a) a não perder nenhum momento em que…

…poderia estar olhando o por-do-sol.

…poderia estar de mãos dadas com quem você ama.

…poderia estar trocando ideia com alguém de interesses comuns.

…poderia estar ouvindo uma história fantástica de alguém legal.

…poderia estar bem-humorado e sentindo-se grato.

…poderia passar adiante um sorriso para alguém gentil.

…poderia dizer com o olhar para a pessoa querida a seu lado: “eu te vejo, e eu estou aqui com você”.

Essa lista é inumerável e as opções são sem fim. Pense com o que você a completaria, algo que você não poderia perder a oportunidade de viver, caso estivesse ali, acontecendo no seu agora… Ou pense em tudo que já deixou de prestar a atenção e não gostaria de deixar passar novamente. Com o que você a preencheria?  🙂

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