Foi sentada de frente para um dos picos mais altos e mais lindos que já vi que a reencontrei. Era noite e a montanha não estava só. Tinha a companhia de uma velha amiga prateada, que neste dia resolveu iluminar todo o céu e expulsar todas as estrelas próximas a ela. Estava admirando a beleza plena e imutável da pintura à minha frente e sentindo a brisa passar pelos meus braços quando a abstração do tempo veio. E então ela chegou. A encontrei sorrindo, e meu peito sorriu de volta. Aquela sensação de paz como reencontrar uma velha amiga.

Ela chegou e me abraçou como um agasalho favorito macio e quente que veste perfeitamente, e envolveu o meu corpo. Logo eu a respirava, a sentia, o coração um só. Eu era ela. E, Deus, como senti a falta dela sendo eu.

Ela é muito mais fácil de lidar, admito. Não sei a última vez que a vi se desesperar. E ela traz essa calma para mim. “Tudo está tranquilo”, diria ela. Ela me faz acreditar que posso tudo. Eu sei, é um pouco de pretensão demais de minha parte. Mas eu tenho fome. E ela logo complementaria a frase com um olhar sereno: “…a seu tempo”. Às vezes fico impaciente, mas não há como ficar brava com ela. Eu já tentei. É só ela chegar, que o corpo fica cheio de espaço por dentro. Ela é mais leve que eu – e muito mais fácil de carregar, na verdade.

Com ela, sinto que estou inteira. Sinto que tudo que eu preciso para sobreviver está bem aqui, comigo mesma. Outras vezes, tentei olhar para os lados à procura de um bote, já implorei aos céus, já esperei ajuda de alguém… Até que, talvez cansada de me ver debater, ela pegou a minha mão e me lembrou como uma mãe faz com um filho: “Você já se esqueceu de mim? Procure sempre por mim… E eu estarei aqui, para ampará-la”. É, é isso. Ela me torna invencível.

Às vezes eu apenas quero ficar encolhida na minha cama como uma criança, protegida do mundo duro e cruel que há lá fora. Fico só e em silêncio por alguns minutos, e então sem pedir permissão ela chega e me eleva. Eu cresço alguns centímetros, e em poucos segundos eu não sou mais a criança assustada. Cara, eu odeio quando ela faz isso. Dessa forma eu preciso encarar o mundo que me espera, não há mais desculpa.

Não há uma vez que ela vem e me deixa igual. Não, eu sempre me torno melhor. Disso não há dúvidas.

E então naquela noite, de frente para a montanha, eu a recebi novamente com carinho, já que já havia um tempo que não a via. Foi uma breve visita, para me lembrar que sempre esteve por aqui e o quanto é bom tê-la por perto.

Pareço uma filha rebelde perto dela – olhei para ela, tão centrada, tão… imutável. Como a montanha. Talvez tenha sido por isso que ela veio. De dentro do meu peito eu a chamei inconscientemente, enquanto meu corpo todo captava através de meus olhos a sua essência universal.

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