O galo velho ainda berrava rouco denunciando o tímido sol quando acordou e sentou na cama. Os óculos de lentes grossas e redondas pousavam ao lado do abajur que há tempos espera por conserto sobre o criado-mudo desgastado por cupins. Enfiou os pés com as meias relaxadas que um dia tricotou na chinela macia e quente que deixa todas as noites ao lado da cama e tateou o criado-mudo. Colocou os óculos e se levantou, fazendo a madeira velha do assoalho ranger.

Se arrastou até a janela vertical que deixava passar pequenos feixes de luz entre as frestas demarcando a poeira que pairava no ar e a abriu, observando a fraca luz do sol atrás das montanhas iluminar calmamente as terras de seu falecido pai, os pássaros pirilando baixinho nas altas e frondosas árvores e alguns bovinos caminhando sem pressa nos morros.

Arejou toda a sua casa e foi para a cozinha passar o seu café, forte e quentinho. Tirou os biscoitos feitos por ela há três dias do armário e tomou o seu café da manhã, enquanto sua gata miava do lado de fora para que lhe abrisse a porta para tomar o seu leite matinal, leite que sua dona gentilmente lhe cedia e que ordenhou no dia anterior de sua vaca preferida. Abriu-lhe a porta e ela roçou-lhe as pernas, passando e indo direto à tigela vazia. Percebendo a falta do líquido, lançou um olhar de advertência à sua dona, que lhe deu um sorriso bondoso.

_’Ocê num tem jeito, Lili.

Agachou com uma mão nas costas que já não funcionava tão bem mais, e lhe despejou um pouco de leite e nata. Lili afundou a cara na tigela e sua dona foi se trocar. Minutos depois apareceu na porta para o quintal uma senhora que, apesar da idade cravada nas rugas da face e na pele maltratada pelo tempo, tinha uma aparência saudável e um tanto jovial de quem vivera bem cada minuto. Os olhos atrás dos óculos eram enrugados, porém muito vivos, sustentado pelas marcas de quem sorrira muito. A pele era da cor do sol matinal e as mãos trazia consigo o trabalho árduo de uma vida inteira. Ela tinha o cheiro do orvalho e a disposição de uma jovem, agora com uma fina blusa de tricô por cima da roupa pelo friozinho que só a brisa da manhã tem. Estava com um balde e uma cesta, para cuidar dos afazeres rotineiros. Chegou no curral frio pela sombra que ainda o cobria e amarrou as pernas de sua vaca, pegou o banquinho descansado no canto do barracão e ordenhou os seus sete litros diários. Depois apanhou o milho e alimentou os animais de sua criação, colheu as verduras e legumes fresquinhos da horta necessários para o almoço e panhou laranjas para fazer um suco. Os seus compadres queridos e parentes de coração das roças vizinhas ainda iam visitá-la todos os dias, às vezes para comer o seu famoso doce de goiaba, às vezes para almoçar sua comida tão saborosa, e mesmo apenas para ouvi-la contar os seus causos de menina e de uma vida inteira de sabedoria. Hoje eles compareceriam para o almoço, afinal é dia de Nossa Senhora Aparecida, e ela iria caprichar. Fez um feijão tropeiro com a farinha de mandioca que ela mesma fizera e um refogado de couve e verduras de dar água na boca. O sol já estava a pino quando os primeiros começaram a chegar. Era o Seu Manuel e a Dona Diva do sítio mais próximo depois de uma manhã inteira trabalhando na roça, arando, plantando, capinando. Um por um foram chegando, e mal desciam dos cavalos velhos faziam o cumprimento com o chapéu de palha, mais o grande sorriso gentil no rosto.

_’Tarde, Dona Queta! Bença.

Nada que conversavam durante o almoço na mesa extensa de madeira da cozinha era preocupação. Falavam-se pouco quando tinham cheia a boca de comida. Às vezes um dos compadres soltava uma piadinha entre um mastigar e outro e fazia as mulheres rirem encabuladas com o canto da boca e Dona Queta perguntar inocentemente o sentido da piada. Quase nunca há resto de comida, e neste dia o que houvera foi destinado fielmente aos dois leais e magros vira-latas do sítio. Depois que todos já haviam ido embora – não antes de deixar pequenos agrados a ela, como bananas, mandiocas recém-retiradas da terra e queijos frescos feito em casa, ela voltou à tranquilidade quase palpável do seu pequeno espaço. Os pássaros já estavam voltando para suas casas e fazendo algazarras celebrando o leve baixar do sol reunidos nas copas das árvores, quando ela foi para a sua cadeira de balanço na varanda tricotar uma blusa quentinha para si. Os fazendeiros vizinhos que haviam saído já voltavam ao longe na estrada com os cavalos cansados. Alguns já estavam reunindo as suas vacas nos currais, ouvia-se o barulho das porteiras. Mas ela só estava lá, tricotando e cantarolando com a boca fechada cantigas que aprendera quando menina. Os raios do sol já batiam fracos na relva, e a terra foi se esfriando lentamente. A gata reapareceu agora e deitou-se aos pés da sua dona, que foi obrigada a parar de balançar para não tirá-la de seus pés. Os pássaros já não cantavam mais. Lentamente ela foi diminuindo seu ritmo no tricotar e, talvez pelo cansaço de seu corpo ou simplesmente pela incrível quietude que tudo de repente ficara, seus olhos ficaram pesados, os óculos escorregaram para a ponta do nariz e sua cabeça tombou levemente para trás. Ela dormiu como um anjo, sem fazer ruído, sem uma cerimônia. Ela adormeceu e logo acordaria com o friozinho da noite, ou com o barulho da coruja e grilos e com o de algum animal derrubando um de seus baldes. Ou com um de seus cachorros fiéis latindo para a noite, e, com sua gata entediada do chão, pulando no seu colo. Ou ela poderia acordar simplesmente porque sentiu que dormiu. Ou poderia nem acordar. Já havia pagado suas contas há muito tempo, e esperava por aquilo com uma paz e resignação que só alcança quem viveu muito bem. Neste contexto, não importava… Tudo estava tão bem.

Luciana F. Lima

09/04/2008

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