Quando se viaja sozinho, você tem que encarar uma realidade de frente: lidar com você mesmo. E o pior é que isso não é fácil, depois de algum tempo você já começa a pensar consigo mesmo “nossa, como você é uma pessoa difícil né”. “Vou te colocar no mudo”. Pois bem.

Lidar consigo mesmo é uma arte, e parecer que está bem com isso é outra maior ainda.

“Vamos lá. Você consegue. Você não vai parecer que está solitária carente de atenção. Qualquer coisa, é para isso que existe celular, para mexer freneticamente nele sem intuito algum a não ser parecer ocupada. Isso mesmo”.

Sim, principalmente quando você quer ir a algum evento ou visitar algum lugar específico e você só tem a si mesmo para ir com você. emoji4 Quando este for o caso, não se desespere. Vá ao evento assim mesmo. Há alguns truques que você pode fazer para não ficar completamente só falando com a sua sombra (por favor, não faça isso, é estranho). O primeiro passo é fazer um reconhecimento da área.

“Hmm grupo animado de estrangeiros 15° à direita. Moças com franjas cortadas no meio da testa, todos fumam. Devem ser franceses. Melhor não. Olha, mais à frente tem um grupo falando uma língua muito louca. Parecem muito friendly e entusiasmados!… Humm não, haverá falhas profundas de comunicação, talvez até um incidente diplomático entre países. Never mind. Veja aquele grupinho de chinesas-coreanas-japonesas perto das plantas, vá lá e converse com elas… Não, pensando melhor, olhinhos puxados só se misturam com outros olhinhos puxados, em sua última experiência você ficou tentando criar assuntos sobre o clima com cara de tacho, lembra? É, tem razão. Melhor não. Vamos, você está há 10 minutos parada aí, FAÇA-ALGUMA-COISA. Ok, não grite comigo. Fique calma”.

Aí você respira, vai até a tenda mais próxima e pergunta quanto é a medialuna e fala que vai olhar outras coisas. Isso é só para ganhar tempo. Sua missão não está indo bem. Observe novamente minuciosamente em seu entorno.

“Alá, alá, um grupo de caucasianos à direita. Sotaque britânico. Bom, sotaque britânico é bom. Éééé…. velhos demais. Mas dá para o gasto, ne? Não seja tão exigente! Ok, alvo na mira, iniciando approach”.

Nesse momento, você está prestes a encarar o maior desafio de todos: traçar um plano estratégico para se enturmar com o grupo.

“Isso, vamos lá. Essa é a hora garota. Go girl go girl go girl…Para! Aff você às vezes é tão infantil. Isso, vai chegando, devagarinho, sem demonstrar maiores pretensões. Isso, tá indo bem. Não olhe diretamente nos olhos deles. Olhe para o chão..NÃO, para o chão não, você não quer parecer um cachorrinho-que-caiu-da-mudança. Isso, olhe de esgueio. Fique na espreita, aguardando o movimento perfeito para atac… digo, intrometer”.

E esta é a hora mais delicada da sua missão. Qualquer movimento mal calculado, e todo o esforço vai por água abaixo. Por isso, pode demorar horas. Na verdade, são apenas alguns minutos, mas vai dizer isso para a pessoa que está lá suando igual tampa de marmita esperando um sinal para ser amada. O tempo passa como em outra dimensão, e qualquer deslize é fatal.

“AÍ. AÍ. Sua oportunidade, eles ficaram calados por alguns segundos. Aff não acredito que você deixou passar essa. Talvez deve apelar pela abordagem clássica… sempre dá certo. É, é isso aí, todo mundo gosta de brasileiros né. Apenas se apresente. Isso”.

_Hi, so… where are you from? – “Não-acre-di-to que você fez essa pergunta idiota, não está óbvio que são da Inglaterra? Você já havia deduzido isso só pelo sotaque, mas o cara ainda te fez o FAVOR de usar uma mochila com a bandeira do próprio país, só para não ter que responder essa pergunta! Ai, agora reverta. Reverta o quadro. Depressa”.

_Yes, I can see that… *risos constrangidos* . So.. I’m from Brazil!! – “Isso, agora joga todo o charme de ser brasileira para cima deles. Isso aí, fuzile eles com o “I’m-brazilian-baby”, parta para o ataque de simpatia. Mostre a eles do que é capaz. Isso, agora o sorriso”.

_Really? You don’t look like brazilians – “Foi o que ele disse. Com todo aquele sotaque britânico lindíssi…Concentre-se. Ele está te elogiando ou te criticando? Decida-se AGORA como interpretar. Vamos, rápido, pessoas te encaram, você precisa demonstrar algum tipo de reação”.

_YEAH, look… – “E é aí que você resolve estragar a bagaça toda né sua lunática. Como por Deus você pensa que eles iam saber ou reconhecer a existência da relevantíssima fitinha do Senhor do Bonfim?? ‘Ah sim, claro, ela tem a fitinha do Senhor do Bonfim, logo ela mora na Bahia ou está diretamente relacionada ao Brasil’. Dã-ã.¬¬”

“Vai, explica essa. Bom, você já perdeu a atenção deles mesmo. Claro, como era de se esperar, eles estão inventando uma desculpa para sair de perto de você. Ai, droga, odeio ingleses e sua finesse natural. Eles fazem você parecer um troglodita ao lado deles, enquanto eles – eu tenho certeza – conseguem falar uma frase como “vou ali dar um mijão” com a maior classe possível. E você nem se toca, para você o que você ouviu foi algo do tipo “irei atender minhas necessidades fisiológicas líquidas, com sua permissão”.

Ótimo, você espantou o bando. Lá se vão seus mais novos-ex-amigos. Essa foi rápido, heim? Talvez seu novo recorde. Bom, missão perdida, às vezes é bom saber a hora de recolher o time de campo. Fique na sua consigo mesma, vai ser legal. Apenas coma algo, mexa no celular e vá embora antes de começar a parecer autista. Maravilha! Vamos nessa! Adoro a minha pessoa. Gosto mesmo, o problema é que até o final do dia já briguei comigo mesma e já fiz as pazes dezenas de vezes.

Vamos lá, vá até a tenda de medialunas de novo e peça três. Não, duas, você não tem dinheiro. Cheque primeiro. Procure no bolso… Hmm… Isso é… uma havaiana? *_* Aloou, estou vendo uma HAVAIANA em um pé ao meu lado que não é o meu!! Vejamos… analise primeiro, não dê vexame. Tem cara de brasileira! Fale portunhol, por favor, fale portunhol…”

_Me dá una medialuna, porr favorr?

“GRAÇAS A DEUS!! Salva por uma havaiana! Iniciar approach…”


PS.1: Isto é apenas uma crônica e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

PS.2: Oi mãe fique calma, eu não sou bipolar.

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