Um lugar apertado, sujo, escuro
Totalmente preso.
Não com algemas, cordas
ou qualquer tipo de empecilhos táteis.
Simplesmente incapaz de se mover.
Petrificado, os pés presos no chão por uma força invisível.
Mas os olhos sem se desviarem do topo,
da pequena fresta do topo,
tão luminosa, tão impressionantemente libertadora.
Algumas criaturas ao seu redor movem-se levemente incomodadas
quase imperceptíveis,
enquanto algumas nem ao menos se incomodam,

acomodadas nos seus cantos em meio à sombras.
Era o único que chamava a atenção
em pé ao meio com a cabeça erguida.
Queria poder passar por aquela fresta.
Sonhava em um dia poder ver a fonte daquela meia-luz.
E então ele gritou.
Ele gritou, gritou tanto, e tão alto.
Tão frustrado consigo mesmo, tão frustrado com aquela incapacidade.
Ele gritou e o teto cedeu, em uma turbulenta avalanche de pedras e estrondos.
A parede em sua frente caíra.
Vento. Luz. Faiscava de tanta luz.
Era milagrosamente maravilhoso, uma imensidão de coisas que ele mal conseguia assimilar.
Ele tentou sair
e conseguiu.
Era como se ele flutuasse levemente sobre o solo.
Olhou pra trás e viu as criaturas, como na caverna de Platão,
ainda paralisadas, como se não tivessem percebido nada.
Estavam olhando para baixo, para os próprios pés,
ainda sombreadas pelas poucas paredes que resistiram intactas.
Então ele percebeu que havia seres belíssimos do lado de fora
Tão raros, quase perfeitos, maiores, mais volumosos.
Tudo lá era mais belo, lúcido, límpido.
Olhou mais uma vez para a caverna, agora tão distante.
E percebeu que, quase sem ele mesmo notar, ele se transformara
Ele, o verdadeiro ele, nasceu.
É hora de viver.

Luciana Lima
27/10/08

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