Havia uma vila no interior de um pequeno país que não gozava exatamente de um clima ensolarado. Na verdade, os dias naquele lugar eram nublados, sempre com uma particular aparência acinzentada e com uma estranha e frequente umidade no ar, como se tivesse acabado de chover.
Era uma vila minúscula, com casinhas pequenas e humildes, onde moravam famílias sempre vindas de gerações antigas da mesma casa. As suas ruinhas tortas e quase todas feitas de pedras eram como se nelas contivessem algo a mais, registros, em que quase se podia ver outras pessoas, de outras épocas, passando por ali.A cidadezinha era mórbida, mas não deixava de ter o seu charme. Todos pareciam estar bem acomodados lá, confortáveis com aquela vida simples, afinal assim o era com seus antepassados também. E assim como eles, as funções de cada um na comunidade eram exatamente iguais, herdadas por genética. O filho do padeiro será também um padeiro como seu tataravô, assim como o ferreiro o é porque seu pai o foi. O ourives aprendeu com o seu avô como reconhecer bem uma legítima pedra preciosa, e o boticário a conseguir a mistura perfeita para curar.

Ninguém costumava questionar muito porque o faziam, nem a refletir sobre suas funções, eles simplesmente as exerciam porque sabiam que eram necessárias, e eles, essenciais para executá-las. Eles viviam como os seus pais, que por sua vez também viveram conforme os seus. Todos pareciam compartilhar do mesmo pensamento de que era assim que as coisas deveriam ser, a não ser um dentre todos os habitantes, um jovem, o único, que não conseguia se ver como o pai… e que também tinha um pensamento que lhe vinha todos os dias de que lhe faltava alguma coisa, como por um exemplo banal, um pouco de raios solares em sua vida não seria tão mal.

Em um dia comum – ele achara que era quarta-feira, mas tinha uma estranha sensação que era domingo desde quando acordara –, cansado talvez daquela mesmice? O motivo não lhe cabe ao certo, mas simplesmente acordara com vontade de algo novo. Êxtase, frisson, euforia, inquietude. Acordara assim nesta manhã, mas o que fazer não havia. Andou pelas ruinhas, e observou o padeiro distribuindo seus pães matinais. O carteiro (que entregava as correspondências e o jornal do dia) passando em sua bicicleta, parando em uma casa, em outra… O ourives recebendo a visita da mesma senhora, alegando que seu relógio voltara com o defeito. Passou, observando tudo e a todos com um ar sem crença, um ar sem importância. Ele era uma sombra, a vagar pelas ruas da pequena vila, sem que ninguém ao menos o notasse. Todos sabiam o seu nome, mas ninguém o chamava ou o importunava no seu dia. Refletindo sobre isso, ele andou pelas ruas sem ser notado, apenas a observar. Aquele vilarejo parecia um lugar paralelo, perdido no tempo. Estava agora caminhando em ruas sem movimento algum de pessoas, só olhando as casas, a pedra que pisava, o meio fio descascado. Deixou-se divagar e assustou-se quando se viu andando em meio a fantasmas, miragens desfocadas, passando ao seu lado em uma velocidade maior que o normal.

Aparentemente via o cotidiano de anos, décadas atrás. Viu carruagens enevoadas, alguns jipes, um fusca. Chegou ao fim da rua e contemplou a paisagem que significava o limite da vila: o vale e o enorme monte que o finalizava. Ninguém nunca tivera a curiosidade de subir até o topo para saber o que havia do outro lado, ou, se tivera, possivelmente não viu nada de especial. Pelo menos ele nunca soubera de alguém que havia o escalado. Será talvez porque ninguém conseguira ou tivera persistência para isso? Era exatamente o que ele precisava.

Embrenhou-se naquela natureza com tal determinação que não olhara para trás uma única vez. Aquelas árvores apertadas, aquela visibilidade dificultada já com a pouca luminosidade que o dia ali oferecia. Enfim chegou ao pé do monte, e em uma subida tão íngreme, ele cansou muitas vezes e parou para respirar. Ele subiu, subiu, a tarde foi caindo lentamente e ele até tinha perdido a noção de quanto tempo estava naquela caminhada quando avistou o topo. Ele o alcançara, e a visão que tivera assim que pisou na grama do alto era extasiante. Respirou fundo, fechou os olhos para renovar a vista e quando os abriu de novo contemplou uma paisagem que nunca até então tivera tanto prazer em ver. Do outro lado era um vale, onde logo abaixo do monte havia uma imensidão de uma plantação que lhe parecia arroz, toda florida no momento. Mais a frente ao longe ele avistou um vilarejo, que o surpreendeu mais ainda quando observou o detalhe: ele era banhado ao sol. Devia ser aproximadamente cinco horas da tarde, porque os raios solares estavam baixos e tímidos, dando uma aparência espelhada da cidadezinha, que fez os seus olhos brilharem. Ficou observando o vilarejo, o sol batendo nos telhados, e de repente percebeu que aquele lugar lhe transmitia paz. Talvez lá as pessoas eram felizes, pensou, e isso lhe deu uma estranha sensação de vida. E então ele entendeu, eles seguiam em frente.

Luciana Lima

21/01/2012

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