Ele era muito solitário, um homem ocupado, vida corrida, não tinha tempo para as pessoas afinal de contas. Funcionário público, desquitado, nenhum filho. É em um pequeno apartamento alugado de um prédio de classe média que mora hoje, amargando todos os dias que aquele bairro já fora mais tranqüilo. Ele era até mais cuidadoso com as suas coisas, mas depois de alguns anos morando sozinho decidira consigo que não valia a pena gastar tanto tempo arrumando a casa. Os móveis hoje acumulam uma tênue linha de poeira, e as louças na pia da cozinha não são lavadas há uma semana.

A sala ainda cheira a mofo por causa do tapete que foi molhado durante uma dessas chuvas torrenciais que vivem acontecendo neste lado oeste da metrópole, já que ele deixara a janela aberta enquanto dormia pesado após um longo dia de trabalho. Na geladeira não havia nada além de um leite semi-desnatado – porque sua mãe sempre dissera que é mais saudável, manteiga, duas fatias que sempre sobram dos extremos do pão de forma, ovos na porta, uma panela com sobras de algum jantar passado e um queijo minas que a dona Marilene lhe dera de presente uma semana atrás, aquela mulher gorda dos vestidos de florzinhas coloridas da repartição.
Depois de 30 anos trabalhando no mesmo negócio, todos os dias saindo às 7 da manhã, enfrentando o trânsito 35 minutos, almoçando em um restaurante meia-boca e voltando pra casa às 18:00, após um outro trânsito de 35 minutos ele resolveu que iria se aposentar (afinal de contas passou a sua vida inteira contribuindo em dia com o governo, então era hora de o governo o sustentar). Aos 50 anos já era um velho, um velho aposentado. Tanto tempo livre outra vez, passou a ter um pouco mais de cuidados com a casa, já que ele nunca fora um homem de ler livros e a televisão já não o prendia mais, eram sempre os mesmos personagens, sempre as mesmas piadas, ele estava cansado. Ele tinha um velho computador que às vezes mexia quando se sentia entediado, e essa ocasião cada vez mais estava acontecendo com muito mais freqüência. Trocou a sua Internet discada por uma banda larga e desde então preenchia o seu dia entrando em sites de relacionamentos mascarado por uma imagem de um jovem viril e charmoso, e às vezes passava por sites pornográficos tentando exteriorizar uma ilusória sensação de prazer. Quando se sentia um pouco sentimental, via e enviava e-mails de reflexões profundas, sobre o amor, a família e a vida. Virou-se uma rotina de que, sempre após o jornal nacional, ele ia até o seu computador e ficava navegando pela Internet até se sentir cansado para dormir pesado o suficiente para não acordar com o seu próprio ronco de ex-fumante. E todos os dias eram assim. Comia um “cup nuddles” na janta, via o jornal e ia para o computador, ficando lá às vezes até meia-noite, uma da manhã. Mas não mais entrava em sites de relacionamentos, desistira de vez de conhecer alguma pessoa, e não mais reenviava e-mails de reflexões. Em vez disso ele ficava cada vez mais vago, lendo vagamente mensagens que via por aí, lendo vagamente notícias do outro lado do mundo, ou às vezes simplesmente encarava sem sentido a tela do computador. Sentia falta de algo. Em um dia se pegou pensando que afinal de contas não conhecia nem mesmo os seus vizinhos mais próximos. Ele devia ter sido um morador muito displicente. Há quanto tempo estaria assim?
Enquanto usava o computador, ele passou a ter um hábito muito peculiar de observar o condomínio de frente ao seu prédio. Observava as janelinhas do prédio que dava para a sua própria janela do quarto, imaginando o que se passava em cada quarto, em cada luzinha acesa. Lia o que lhe interessava na tela, e pausava para dar uma olhada nas janelas do prédio. Quantas famílias compunham aquelas salas e quartos? Ficava fantasiando quando via luzes apagadas visivelmente iluminadas somente pela televisão ligada. Seria o casal vendo o último programa antes de dormir – quem sabe? – enquanto os filhos fazem suas lições ou jogam videogames em seus quartos. Ele se habituara tanto a observar aquelas luzes daquelas janelas que ele quase podia afirmar quando elas se acenderiam ou quando apagariam. O sentimento era que ele havia ficado íntimo daquelas pessoas, e era como se ele as conhecesse em sua essência.
Era tanto que se arrastar até a madrugada em seu computador agora era quase insuportável, vendo até a última luz do prédio se apagar. Escuro lá fora, todos já foram se deitar. O deixaram. Aquilo o desamparava. Ele se sentia só.

Luciana F. L.

16/12/2009

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