Fazia uma manhã chuvosa naquela véspera de Natal e Ágata já andava por todas as ruas do centro da cidade procurando por presentes. Ela já havia comprado os seus para presentear as pessoas mais próximas por quem tem deveras consideração, mas estava à procura de outros, talvez um pouco mais em conta devido à quantidade. Sempre teve a vontade de fazer um pequeno amigo oculto com os irmãos, especialmente após a perda da mãe. Já não tinham os pais há muito tempo e cada um se fechara com as famílias que construíram. Desde que a mãe se fora, aquela era uma data fria e triste.

E neste Natal, após propor a brincadeira semanas antes, todos os irmãos pareceram dispostos a participar. Porém, no dia anterior, ela ligou para confirmar se estava tudo certo e quem poderia ajudá-la com a ceia, mas ouviu do outro lado da linha cada um com suas desculpas de porque não poderiam colaborar e se ela não achava melhor deixar esse amigo oculto para lá.

Ela não discutiu, muito menos se exaltou. Ágata nunca se exalta com ninguém. Em vez disso, se propôs em silêncio que iria comprar lembrancinhas para cada um na manhã do dia seguinte, e cada qual tiraria o amigo secreto na hora e escolheria um presente para dar a essa pessoa. Ela queria que a família trocasse experiências, que existisse uma interação alegre entre eles, nem que fosse no dia do natal.

E lá estava ela, para baixo e para cima, procurando promoções, entrando em toda loja que via algo parecido com alguém, aquele centro com as ruas molhadas e lotado de pessoas e papais noéis nas portas dos comércios. Entrou em lojas de roupas, entrou em lojas de bijuterias, em sapatarias e lojas de brinquedos. Precisou ir ao carro estacionado três vezes somente para depositar sacolas e mais sacolas que ocupavam suas mãos. Às 11 da manhã, após acreditar ter comprado presentes suficientes para cada um, voltou ao carro e foi para casa. Fez almoço com o que tinha na geladeira e comeu, pensando no resto de coisas que ainda tinha a fazer até a tarde acabar. Lavou a louça e limpou a casa, ajeitando aqui e ali os seus decadentes enfeites natalinos na árvore e no corrimão da escada.

Quando acabou de arrumar tudo e olhou em volta, observou que faltava alguma coisa na sua árvore, o “grand finale”… faltava o último enfeite do topo. Costumava colocar uma estrela dourada, mas esta já tinha perdido o brilho há tempos. Ela sabia exatamente o que poderia colocar ali, mas que nunca havia usado antes. Correu até o seu quarto e apanhou uma caixinha velha no fundo do guarda-roupa. Dentro dela havia um belíssimo e ornamentado anjo de vidro, cuidadosamente embalado em meio a folhas de jornais do passado. Era de sua mãe. Pegou-o e o dependurou com carinho no topo da árvore, deixando-a enfim com o efeito perfeito que buscava. “Agora sim, está completa!”.

Deu uma última olhada satisfeita em sua volta e foi tomar um banho rápido. Logo depois já estava na cozinha para preparar tudo. Colocou as bebidas para gelar, pôs o seu melhor forro de mesa, preparou aperitivos e temperou o peru e colocou-o para assar. Estava animada com aquele natal, e tudo havia de estar perfeito! Já eram oito horas e recapitulou tudo em sua cabeça: O peru já estava no forno, as bebidas já estavam geladas, as saladas e frutas já estavam postas na mesa decorando-a de verdes, vermelhos e laranjas. As balas e doces já estavam nas jarras na estante para as crianças. Parecia que tudo estava ok.

Exceto um pequeno detalhe dentro de seu peito: apesar de sua dura luta interior, sentia-se só e infeliz. Uma parte dela já estava acostumada a se sentir assim, afinal era filha única dentre seis homens, mas pensava que se sentiria mais feliz ao final daquela noite, vendo todo o seu esforço se recompensar. Não queria passar outro Natal com cada um separado em suas casas. Não podia deixar. Simplesmente não aceitaria mais isso. Mesmo que tivesse de fazer tudo sozinha.

Eram quase dez horas quando os irmãos começaram a chegar. Beijo na tia, cumprimentos, tapinhas nas costas embaraçados, sentam na mesa, Ágata serve os recém-chegados com um copo de espumante. Logo a casa já estava cheia e todos conversando entre si, os irmãos sobre os seus trabalhos e as cunhadas sobre como era difícil criar e educar um filho no século XXI. Ágata, que não sabia opinar sobre nenhum dos assuntos, apenas observava tudo do seu canto da mesa.

“Márcia… como Rogério poderia um dia se casar com alguém como ela?” Ele, que sempre fora o mais centrado dos seis e que sempre a ajudou a terminar de criar os outros. “E Estéfano, como pôde ter mudado tanto, quando era mais jovem tinha tantos sonhos, tão desenvolto e otimista”…

_Ágata… Ágata? Você não comprou nenhum refri diet?

Ela estava apenas a assistir em meio aos seus devaneios, ora ou outra levantando para servir-lhes mais tira-gostos e bebidas que iam acabando. Foi seu papel também ficar de olho nas crianças, que brincavam sem censura por todos os cantos da casa e corriam perigosamente perto da árvore de natal.

Resolveu ir para a cozinha finalizar o que faltava para a ceia, que ainda não havia feito para ficar quentinho para a refeição. Ficou longe do tumulto da copa e da sala por uns quarenta minutos, apenas entreouvindo suas conversas e ora ou outra alguns risos. Faltavam quinze minutos para a meia-noite quando estava pronta para servir. Levou as diversas tigelas de comidas para a mesa, e todos de repente se aquietaram e ficaram esperando, ora olhando para a comida, ora para ela.

_Alguém talvez pudesse dizer algumas palavras?… – perguntou ela com esperança, olhando para todos que a cercavam. Nada. Houve alguns murmúrios dizendo que ela mesma quem deveria falar algo, mas isso sempre fora um problema para Ágata: o falar. Olhou outra vez pela sua família. Porque todos moveram em frente tão facilmente e ela não? Talvez devesse parar de se esforçar tanto. Talvez certas coisas são irreparáveis.

_Vai Ágata, fala um pouquinho!

_É, fala, Ágata! – incentivaram um e outro.

Engoliu em seco, o coração começou a acelerar abruptamente e as mãos a suar. Apertou as mãos e mal podia acreditar que sua boca estava abrindo, trêmula:

_Err… Eu queria dizer que…

Foi como um flash. As crianças, incomodadas com a repentina quietude, voltaram a gritar e a correr atrás umas das outras. Houve um farfalhar e, de repente, em meio às pessoas, Ágata viu tombar a sua bela árvore de natal, fazendo o inconfundível tinido de vidros se quebrando ao chegar ao solo. Ela foi até lá e olhou petrificada o inigualável anjo de vidro despedaçado no chão. Partido em três partes e outros vários caquinhos de partes menores espalhados. Irreparável. Em seguida, levantou os olhos para as crianças (quase desconhecidas de como cresciam rápido). Olhou para os irmãos, para as cunhadas, alguns em silêncio, alguns soltando exclamações exaltadas. Com lágrimas nos olhos, recolheu o que caíra da árvore, levantou-a no seu lugar novamente, apanhou os cacos de vidro e se recolheu silenciosamente para o seu quarto, levando o anjo e a si mesma em pedaços.

Luciana Lima

24/12/2009

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