Da série “Crônicas”

Eu nunca tive muita sorte em meus encontros amorosos. Não que eu saia com as garotas erradas, muito pelo contrário, e olha que eu nem sou lá tão desajeitado assim. Mas quando eu saio com alguém, parece que sempre há algo programado a sair errado. Lembro-me de uma vez que eu levei a namorada pra passear no parque de diversões da cidade e no brinquedo que sugeri a cadeira dela falhou a trava de segurança e hoje ela está com a bacia fraturada. E outra vez que descobri que a acompanhante era “o” quando encontrei com ela – ou ele – no banheiro… ok, desta vez foi a garota errada.

Mas o que eu estou falando é verdade, tanto que na semana passada eu inventei de dar “piriri” bem no meio do meu encontro no restaurante mais elegante da cidade. “Piriri”, pra não falar outra coisa!
Estava eu, completamente doido pela nova namorada, toda bonitinha e educada, com os cabelos muito bem escovados e presos num laço e unhas pintadas francesinha. Resolvi levá-la para jantar em um restaurante chique, já que ela vinha de famílias tradicionais e sempre comia muito bem. Chegamos ao lugar e já fui logo chamando o garçom que passava pra mostrar liderança, mulher gosta de homens assim.
Peguei o cardápio, procurei pelo prato mais exótico que havia nele e pedi sem hesitar: “Dois copos de vinho seco e caviar, por favor”.
Verdade seja dita, da origem que eu sou, as pessoas mal sabem o que é caviar, mas naquele momento parecia não importar muito… Música lenta ao vivo, uma mesa à luz de velas, decoração de rosas, pedia algo para impressionar!
Enchi os copos de vinho e estava aproveitando o momento para jogar todo o meu charme para ela quando veio… o caviar! Confesso que eu fiquei um minuto sem entender se aquilo era mesmo pra comer ou não até que ela puxou um dos pratos para si.
Pra não demonstrar a minha falta de controle à situação a imitei e comecei a comer.
Quando aquilo bateu no meu estômago, eu logo senti algo diferente acontecendo. Olhei pra ela com um sorriso frouxo e continuei a mastigar contra vontade. Até que uma hora eu comecei a suar descontroladamente, eu tentava disfarçar mas a tremedeira me denunciava.
Eu queria falar “ô broto, eu preciso ir ao banheiro e eu não vou voltar tão cedo”, mas eu não podia falar aquilo, simplesmente não podia! Eu olhava pra ela, comendo sem colocar os cotovelos à mesa e calada só para não falar de boca cheia… Ela era tão fina! E para isso também exige-se um grau de intimidade na relação, se é que me entende.
Deixei isso pra lá e continuei comendo aquilo, na esperança que aquele mal estar passasse.
Mas ele não passou, e depois de alguns minutos eu estava tão tenso e tão concentrado em não ceder à pressão da minha barriga que demorei alguns segundos para perceber que ela estivera falando comigo. “Perdão?”
_Você está bem? Parece que está meio trêmulo, e está apertando o guardanapo.
Olhei para minhas mãos horrorizado e foi só aí que eu percebi esse detalhe. Soltei o guardanapo e na mesma hora em uma conseqüência terrível todo o resto foi solto, era como se todo o controle estava no simples gesto de apertar as mãos. Soltei, e meu corpo relaxou e como num vulto tudo que estava me empenhando em segurar saiu. No início eu não acreditei no que acontecera e ainda estava um pouco em dúvida quando o cheiro deixou bem claro o que acabara de ocorrer. Olhei pra minha namorada desesperado e aparentemente ela ainda não tinha percebido o desastre. Levantei com urgência, dei uma desculpa esfarrapada, deixei a ela dinheiro para o táxi e sai correndo dali o mais rápido que pude.

Cheguei em casa – ainda incrédulo com o efeito drástico daquelas bolinhas em mim –, tomei um merecido banho de 25 minutos e fiquei imaginando o que ela estaria pensando naquele momento. “Bom, de qualquer modo, amanhã eu mando rosas e um bilhete bem bonitinho com um pedido de desculpas, tudo certo”.
No outro dia pela manhã bateram a campainha na minha casa e quando atendi a porta havia uma pequena caixa com pouquíssimas coisas dentro que o minúsculo relacionamento permitiu ter, mais um pedaço de papel destacado escrito: “Toma suas coisas de volta. Pode ficar com a outra!”
Li bestificado essa frase e em seguida dei uma risada, com uma certa sensação hilária de alívio por dentro. “Antes isso que a verdadeira história do que aconteceu”, pensei. Mulheres! Sempre pensando que o problema são elas…
– Embolou o papel, pegou a pequena caixa e entrou, balançando a cabeça com um pequeno sorriso de canto de boca.

Luciana – 15/09/2009

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